Menino que falou inglês com mergulhador é refugiado e vive longe dos pais

A voz calma e o jeito educado do jovem de 14 anos Adul Samon chamaram a atenção quando foi divulgado o vídeo do momento em que os 12 meninos e o treinador de futebol deles foram encontrados após passarem nove dias numa caverna no norte da Tailândia.

Samon era o único que falava inglês e conseguiu se comunicar com a dupla de mergulhadores britânicos que achou o grupo em uma câmara de ar da caverna, informa o Terra.

“Quantos vocês são?”, perguntou o mergulhador assim que avistou os meninos aglomerados sobre uma rocha, tentando se manter distantes da água que inundou a caverna.

“Somos treze”, respondeu o adolescente, em inglês, para então perguntar “que dia é hoje” e dizer que todos estavam famintos. Os mergulhadores responderam que é “segunda-feira” e que o grupo já estava havia mais de uma semana na caverna.

Eles também explicam que precisam deixar os jovens lá, porque tiveram que mergulhar para chegar até o local. Mas acrescentam: “Somos só dois. Mas muita gente está vindo. Mais gente está vindo aqui. Vocês são muito fortes, muito fortes.”

Em outra filmagem divulgada pelas equipes de resgate, Adul diz, em tailandês: “Eu sou o Adul. Estou bem de saúde”. E faz o tradicional gesto tailandês “wai” de cumprimentar – que simboliza respeito ao outro.

Nos dias que se seguiram, veio à tona a história de vida de Samon, enquanto a Tailândia e o mundo se mobilizavam para tentar salvar os adolescentes e o treinador.

Os 12 meninos e o técnico entraram na caverna no dia 23 de junho depois de um treino, e acabaram surpreendidos por fortes chuvas que inundaram o local e bloquearam a saída.

No domingo (8), foram resgatados os primeiros quatro jovens. As operações continuaram na segunda e foram concluídas com sucesso nesta terça.

Refugiado de Mianmar

Adul Samon nasceu em Wa, como é conhecida a região habitada predominantemente pelo povo e que ocupa uma parte de Mianmar e outra na China. A parte em Mianmar gozava de relativa autonomia, mas é palco, desde a década passada, de um conflito armado entre rebeldes do Exército da União Wa e as tropas de Mianmar que tem provocado a fuga de milhares de pessoas para os países vizinhos.

Os pais de Samon conseguiram enviar o menino aos 7 anos para estudar no norte da Tailândia, onde foi acolhido por um casal de professores membros de uma igreja cristã, segundo a agência AFP.

Por causa da falta de reconhecimento como país autônomo – nem por Mianmar nem pela comunidade internacional – não há emissão de passaportes em Wa. Adul Samon é uma das 400 mil pessoas registradas como apátridas na Tailândia, conforme dados da Agência das Nações Unidas para Refugiados.

Sem certidão de nascimento, carteira de identidade ou número de passaporte, Samon não pode se casar, arrumar um emprego, ter uma conta bancária, viajar ou votar.

O governo tailandês garantiu que registraria todos os apátridas até 2024, mas até agora muitas pessoas continuam em um “limbo”, à espera da documentação.

Colegas de Adul Samon fizeram um painel em homenagem a ele, na escola. O menino de 14 anos mora longe dos pais e estuda numa escola cristã
Colegas de Adul Samon fizeram um painel em homenagem a ele, na escola. O menino de 14 anos mora longe dos pais e estuda numa escola cristã

Foto: Lauren DeCicca / BBC News Brasil

Poliglota e apaixonado por esportes e música

Além de falar inglês, Samon fala birmanês, tailandês e chinês. Mas o que mais chama a atenção de quem conhece o jovem é a educação e a humildade.

“A primeira coisa que vem à minha mente quando falo sobre Adul é a educação dele. Ele faz o gesto ‘wai’ para todos os professores que passam por ele. Faz isso o tempo todo”, disse à AFP o professor Phannee Tiyaprom, da escola Ban Pa Moead, onde Samon estuda.

Segundo professores, o adolescente é apaixonado por futebol e toca piano e guitarra, além de ir bem nos estudos.

“Ele é bom tanto nos estudos quanto nos esportes. Conquistou várias medalhas e certificados de excelência para a nossa escola”, disse à AFP Phunawhit Thepsurin, diretor do colégio onde o jovem estuda.

Enquanto estavam presos os meninos trocaram cartas com os parentes, transportadas pelos mergulhadores. Samon escreveu que sentia saudades dos pais e pediu para eles não se preocuparem.

“Mamãe e papai querem ver seu rosto. Estamos rezando por você e seus amigos, para que a gente possa se ver logo”, responderam os pais do adolescente.

10/08/2018